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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Homilia - Abertura do ano pastoral

Hoje transcrevemos a homilia do Bispo do Porto, aquando da abertura do ano pastoral:



1. Acompanha-me nesta hora de abertura solene do novo Ano Pastoral na nossa Diocese a bela saudação de S. Paulo aos cristãos de Roma: “Graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo” (Rom.1,7).
S. Paulo diz aos romanos que pelo Evangelho foi chamado a ser apóstolo e diz-nos a nós que os cristãos de Roma foram igualmente chamados pelo mesmo Evangelho a “serem de Cristo”.

A vocação do apóstolo é modelo da vocação dos cristãos. Mas a vocação do apóstolo é mais do que modelo. É missão. Foi pela missão que S. Paulo se tornou testemunha qualificada da alegria do Evangelho

Nas cartas, na vida, nas viagens, no trabalho de S. Paulo escreve-se a vida e afirma-se a missão da Igreja. Assim se escreveram, igualmente, os Atos dos Apóstolos, que nos falam da beleza e do encanto da Igreja nascente.

Também nesta hora se escreve mais uma página da vida da Igreja do Porto, escrita ao jeito de S. Paulo, com alegria, com entusiasmo e com esperança.

Abre-se, em dia da Dedicação da Igreja Catedral, para a nossa Diocese o novo caminho pastoral, que vamos percorrer ao longo deste ano. Temos o nosso olhar colocado no horizonte da celebração dos 150 anos do nosso Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição, no próximo dia 15 deste mês, e dos 900 anos da restauração da Diocese, em outubro próximo, e daí partiremos no rumo do futuro, com datas a recordar e com metas a percorrer.

2. O início de cada Ano Pastoral exige um olhar novo e projeta-nos para um horizonte diferente. Temos diante de nós um método de pedagogia pastoral, alicerçado na corresponsabilidade eclesial nos diversos níveis, âmbitos e instâncias, e uma meta definida, concreta e marcada no tempo. Um ano é uma breve etapa que nos vai permitir uma reflexão mais ampla a afirmar a nossa disponibilidade para realizarmos um esforço pastoral comum de maior alcance para que a Igreja do Porto consciente na fé, mobilizada no seu todo, fortalecida na comunhão e renovada na caridade seja sinal de esperança para o mundo.

Sabemo-nos todos necessários e queremo-nos todos envolvidos, cultivando formas, meios e oportunidades para viver de Cristo e anunciar em seu nome a alegria do Evangelho.
Queremos ser, como diz S. Paulo aos Coríntios: “uma carta de Cristo, ministrada por nós, escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas que são corações de carne”(2 Cor.3,3).

Convido-vos a ler e a escrever esta carta com o mesmo encanto com que se escreveram as páginas do início da Igreja no Porto, da restauração da Diocese, séculos depois, da sua organização pastoral, da construção dos seus Seminários e doutras necessárias estruturas pastorais, do testemunho vivo dos seus bispos, sacerdotes, diáconos, seminaristas e consagrados e da afirmação pública dos cristãos do Porto, conscientes da sua fé e da implicação do seu testemunho coerente de vida no viver da Cidade e do País.

Convoco-vos para a missão. Ao verem-nos disponíveis e generosos e ao sentirem-nos discípulos de Jesus, o Mestre e Senhor, outros se juntarão a nós, guiados pelo mesmo Espírito de Deus.

3. Escolhemos como lema para este Ano pastoral: “A alegria do evangelho é a nossa missão”. Inspira-nos nesta escolha a recente Exortação Apostólica do Papa Francisco: “A alegria do Evangelho”.

Desta Exortação Apostólica faremos texto e tema para a nossa formação, no decorrer do tempo, e orientação de atividades e iniciativas ao longo de todo o Ano pastoral, concretamente nas Caminhadas de Advento-Natal e de Quaresma-Páscoa, que em tempo oportuno apresentarei à Diocese.

Desde o início do meu ministério, no Porto, encontrei na Igreja, que Deus me enviou a servir, esta alegria do Evangelho, desenhada e esculpida na alma de uma Igreja com um belo e longo percurso histórico e mais recentemente impressa e expressa em inovadoras experiências pastorais, vividas a nível das pessoas, das paróquias, das vigararias, dos movimentos e das instituições, de que destaco: a Missão 2010, as Jornadas Vicariais da Fé e a celebração dos Dias diocesanos, a que acresce o dinamismo vicarial e paroquial sentido nas nossas Comunidades cristãs.

Um novo ano pastoral, e este em concreto, que é o primeiro que vivo convosco como bispo para vós e como irmão convosco, deve ter a esperança como motor e como força propulsora das atitudes a cultivar e dos programas a realizar nas várias vertentes pastorais. Queremos ser um Igreja onde as pessoas sintam o gosto de a ela pertencerem.

A esperança surge assim na Igreja diocesana como presença irradiante da renovação que se deseja e do serviço aos mais pobres que realizamos.

O serviço aos mais pobres exige atenção demorada e criativa. Implica proximidade e escuta. Necessita de persistência e de aprendizagem. Procura respostas novas para problemas diferentes e para pessoas concretas, únicas e irrepetíveis. É necessário ir ao coração dos problemas sociais para proteger os mais frágeis e promover a sua dignidade.

A pobreza não é uma fatalidade nem pode ser uma tirania a subjugar os mais frágeis ou desprotegidos. A Igreja do Porto nunca deixará esgotar na sua missão nem extinguir em cada um de nós a generosidade e a caridade ao serviço dos mais pobres.

Cada batizado, como sabemos, é responsável pela sorte do Evangelho em ordem a construir um mundo melhor. Deve viver esta responsabilidade e realizar esta missão integrado na comunidade cristã e possuindo o sentido da Igreja Diocesana.

Convido-vos, irmãos e irmãs, a viverdes este desafio prioritário que nos torne acolhedores, disponíveis e com espírito de comunhão nas paróquias, nas vigararias, nos secretariados, nos movimentos, nas instituições e na pastoral diocesana no seu todo.

4. Inicia-se no próximo dia 5 de outubro, em Roma, o Sínodo extraordinário dos Bispos sobre “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Teremos presente, ao longo de todo o ano, esta iniciativa do Papa Francisco e a sua intenção de dar centralidade à família, na oração e na missão da Igreja.

Vamos viver, igualmente, em comunhão com o Papa Francisco o Ano dedicado à Vida Consagrada. Queremos agradecer a Deus o dom das comunidades religiosas e da vida consagrada na nossa Diocese e dar mais visibilidade e atenção ao testemunho da vida consagrada.

Nunca perderemos na linha do horizonte desta viagem pastoral a prioridade a dar à pastoral vocacional que deve impregnar de espírito e de esperança toda a pastoral. Somos chamados, em Igreja, a sermos promotores das diferentes formas de realização vocacional, muito em especial das vocações sacerdotais e das vocações de consagração.

Partimos, irmãos sacerdotes, diáconos, seminaristas, consagrados e consagradas, leigos e leigas, catequistas, educadores, professores de Educação Moral e Religiosa Católica, agentes de pastoral nas diferentes vanguardas da missão pastoral para esta viagem feliz de um novo ano pastoral, dispostos a trabalhar como se tudo dependesse de nós e decididos a rezar, sabendo que tudo depende de Deus.

A palavra de Deus, hoje proclamada, ajuda-nos neste propósito pastoral que aqui se faz compromisso de missão e ilumina-nos no caminho que agora iniciamos.

Este é o templo do Senhor, de que nos falava a primeira leitura. Este templo é sinal de que Deus habita no meio do seu povo (Ez 43, 1-7). Sabemos todos que “o templo de Deus é santo e nós somos esse templo” (cf 1 Cor 3, 9-17). Igualmente expressivo é o texto do Evangelho que nos narra o encontro e o diálogo de Jesus com Zaqueu. Faz-nos bem ouvir de Jesus esta palavra, também dita para nós: “Hoje entrou a salvação nesta casa” (Lc 19, 1-10).

São muitos, aqueles que procuram Deus, porventura de forma tímida e de modo discreto. A todos somos enviados em missão, ao longo do ano que hoje começa, para que também neles Deus tenha o seu templo e para que Jesus entre em sua casa.

Procuremos ver Jesus. Caminhemos em frente. “Façamo-nos ao largo”, neste oceano imenso do mistério santo de Deus e da urgência do Absoluto. Demos prioridade à incessante procura do essencial na vida e na missão de todos nós bispos, sacerdotes, seminaristas, diáconos, religiosos e leigos.

5. Confio este Ano Pastoral e as realizações que nele vão decorrer à proteção terna de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da Catedral e da nossa Diocese.

É sob o seu olhar materna que a Diocese do Porto sempre caminhou ao longo da história. É sob a bênção constante deste mesmo olhar que vamos caminhar ao longo do novo Ano Pastoral, que hoje aqui se inicia. Feliz Ano Pastoral!

sábado, 10 de maio de 2014

Homilia - Bênção das pastas 2014

Quase a terminar a tradicional semana académica na nossa cidade do Porto, transcrevemos aqui a mensagem que o nosso Bispo, D. António Francisco dos Santos no dia da benção das pastas, proferida na Avenida dos Aliados:




1.Hoje cumpre-se para vós, caros Finalistas, um sonho que vem de longe. O dia da Bênção constitui uma data inscrita no calendário da vossa vida. É um dia unificador de todos os dias da vida de cada estudante.

Nesta etapa da viagem da vossa vida não estais sós. Convosco estão as vossas famílias e muitas pessoas de bem que vos acompanham desde sempre.

O tempo da Universidade ofereceu-vos a bênção das pessoas encontradas, dos mestres competentes, dos funcionários dedicados e dos companheiros inesquecíveis.

Deus esteve e está presente nesta viagem. Assim o acreditamos, sentimos e celebramos.
Esta é, por isso, uma hora de bênção de Deus pelo caminho percorrido, pelo esforço feito, pelo trabalho realizado, pelo mérito alcançado e pelos resultados conseguidos.

Esta é uma hora de gratidão aos vossos pais, irmãos e avós, sempre presentes, desde o berço da vida, à mesa do pão repartido e à força recebida nos vários degraus das decisões que vos fizeram chegar aqui.

Este é um dia feliz para a Cidade, para a Igreja e para a Academia do Porto.

2. O Evangelho de hoje fala-nos dos peregrinos de Emaús numa página cheia de encanto e de beleza. O caminho de Emaús é também itinerário pascal que nos conduz ao encontro de Jesus ressuscitado. Outrora os discípulos de Jesus regressavam a Emaús, a sua terra, sem horizontes de futuro onde pudesse brilhar qualquer semáforo de esperança.

Traziam com eles apenas as recordações de um tempo feliz, vivido com Jesus, e a alma magoada pelas circunstâncias da Sua morte inocente e pelas notícias estranhas da sua ressurreição. Junta-se a eles um desconhecido, disposto a fazer uma viagem conjunta, ao ritmo dos passos de cada um. Este companheiro de viagem é Jesus ressuscitado, que eles reconhecem apenas quando lhes reparte o pão e lhes abre o coração à compreensão das Escrituras e à leitura da realidade vivida em Jerusalém naqueles dias. (Lc 24, 13-35).

Agora somos nós os peregrinos de Emaús. Neste caminho que aqui nasce, e hoje para vós começa, encontrareis Jesus sempre presente e próximo.

Cristo tem um lugar insubstituível na vida de cada um de nós. Com Jesus sentado à vossa mesa ou caminhando ao vosso lado abri o olhar do coração com a ousadia da fé aos desafios do futuro.

O Papa Francisco, na mensagem enviada para a Semana Mundial de oração pelas Vocações, que hoje começa, lembra-nos que “Jesus vive e caminha nas nossas realidades da vida e que a vocação para seguir Jesus brota do coração de Deus e germina na terra boa do povo fiel”.

Rezo convosco e por vós para que a coragem de seguir Jesus, o ânimo para assumir o Seu projeto e a perseverança para lhe ser fiel germinem na terra boa do vosso coração.

A Bênção que ides receber fortalece o vosso coração diante do horizonte de um País que vive uma hora difícil, mas que, por isso mesmo, mais precisa de vós e mais deve contar convosco. Convosco é possível sonhar e construir um Portugal melhor! Esta é para vós uma grande missão!

O mundo precisa de jovens como vós! Portugal deve saber ouvir a vossa voz, dar valor ao vosso saber, abrir espaço ao vosso trabalho e contar convosco na construção do bem comum. A Igreja acompanha-vos neste sonho e neste projeto de todos nós. É também essa a sua missão!

Conheceis os dramas das pessoas sem pão, sem casa, sem trabalho, sem paz, sem alegria e sem esperança. Estai atentos, sede sensíveis e mostrai-vos solidários com todos quantos diariamente percorrem caminhos novos, procuram soluções realistas e decidem respostas audazes para que o medo não se instale na vida das famílias e no coração do mundo.

Lembramos na nossa oração os jovens universitários que partiram prematuramente da vida em circunstâncias dolorosas. Não os esqueceremos nunca. Sabemos pela fé que a vida não acaba, apenas se transforma!

3.A Universidade é escola de saber e de sabedoria, de diálogo com a Cultura, de serviço ao Mundo e de solidariedade com a Humanidade, onde se aprendem os conhecimentos necessários e se descobrem os valores perenes que abrem caminhos ao futuro digno e feliz de todos nós.

O horizonte do sonho não se esgota hoje nem se circunscreve a esta bela moldura humana e à alma cristã que habita e anima a nossa Avenida dos Aliados. Recordo-vos a afirmação poética de Sophia de Mello Breyner:

“Sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.” (do poema “Escuto”)

Peço-vos que leveis das nossas Universidades do Porto o fascínio de um saber límpido e aberto, sólido e profundo, exigente e prestigiado. Pelo vosso saber e pelo vosso trabalho, pela vossa fé e pela vossa coragem sois chamados, também, a levar a alegria do Evangelho, a fortaleza da esperança e a ousadia da caridade cristã ao mundo em que vivemos.

Celebramos a Bênção, por feliz coincidência, no Dia da Mãe. Vós sois, caros Finalistas, o melhor dom hoje oferecido às vossas Mães e o melhor dom por elas oferecido ao Mundo e à Igreja.

Senti, igualmente, hoje e aqui, no Porto, Cidade da Virgem, Senhora de Vandoma, a bênção terna da Mãe de Jesus e nossa Mãe, a quem vos confio com filial afeto e devoção.
Queridas Mães: continuai a abençoar os vossos filhos com o dom do vosso amor, com a ternura do vosso carinho, com o exemplo da vossa vida, com a generosidade da vossa doação, com o testemunho da vossa oração e com o encanto da vossa alegria. As Mães são o dom maior e mais belo do amor de Deus.

Obrigado Mães! Parabéns Finalistas!
Porto, Avenida dos Aliados, 4 de maio de 2014

António, Bispo do Porto

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Novo Bispo do Porto - mensagem aos diocesanos

Transcrevemos a mensagem do novo Bispo do Porto, conhecido hoje 21 de Fevereiro de 2014, D. António Francisco dos Santos. 

Antes da transcrição, deixamos um obrigado a D. Pio Alves que com o seu carisma, simpatia, simplicidade e saber tocar no coração do outro (entre outros aspectos), deixa a sua marca na nossa Diocese do Porto.

A D. António dizemos: PRESENTE! Aqui nos tem e, em nome de Montebelo (paróquia do Bonfim), faço o convite para conhecer a não só a nossa Capela, mas também a nossa Comunidade.



Caros Diocesanos,

Era tão imprevisível este chamamento que Deus agora me faz que não consegui balbuciar palavra, quando a decisão do Papa Francisco me foi comunicada.

Sei que é ao Santo Padre, como Bispo de Roma e Pastor Universal da Igreja, que compete dar Pastores a todas as Igrejas. Lembrei nesse momento a Palavra de Deus ao Profeta Jeremias: “Irás aonde Eu te enviar” (Jer 1,7).

Apesar desta palavra recorrente ao meu espírito e presente no meu coração, muitas as dúvidas e grande o temor com que me defrontei ao ver as minhas limitações e fragilidades, perante a grandeza da missão.

Interroguei-me dia e noite sobre o que posso eu levar de novo a uma Diocese habitada por tanta gente de bem e de valor e habituada a tão generosos servidores como bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e leigos.

À Diocese de Aveiro peço a compreensão para este meu gesto ao serviço da Igreja, que em nada significa, menos respeito ou menor amor. Aveiro sabe como sempre aqui me senti feliz como bispo e como é grande a dor da separação.

Todavia, senti que só conseguiria reencontrar a serenidade de coração e a liberdade de espírito, quando com a ajuda de Deus vencesse todos os receios e temores.

Levo comigo o modo próximo de ser e de viver, a alegria convicta da fé e o desejo fraterno de a todos olhar com os olhos de Deus, para a todos servir como Deus quer e ama.

IN MANUS TUAS é o lema episcopal que escolhi, quando o Papa João Paulo II, me chamou a ser bispo auxiliar de Braga e titular de Meinedo. Renovei este mesmo compromisso diante do Papa Bento XVI quando me enviou para Aveiro. É com igual verdade que agora o afirmo diante do Papa Francisco. Este lema e os sentimentos que ele exprime unem-me a Cristo e à Sua Cruz e colocam-me sob o olhar terno da Mãe de Jesus, Senhora da Assunção, nossa Mãe e Padroeira.

Saúdo, como irmão que sempre serei, o senhor Administrador Apostólico, D. Pio Alves, os senhores Bispos Auxiliares, D. António Taipa e D. João Lavrador, os senhores Bispos Eméritos, os senhores Vigários Gerais, o Cabido da Catedral, os Sacerdotes, Seminários, Diáconos, Consagrados e Leigos.

Desde já afirmo a alegria de servir a grande comunidade humana da Diocese do Porto, com os seus eleitos e representantes autárquicos, as Autoridades Locais, as Universidades e Escolas, Instituições e Associações.

Quero dirigir uma palavra de muito afeto às crianças, aos jovens e às famílias.

Serei irmão e presença junto dos doentes, dos pobres e dos que sofrem e com eles procurarei fazer caminho de bondade e de esperança na busca comum de um mundo melhor.

Quero ser apóstolo das Bem-Aventuranças nestes tempos difíceis que vivemos.

Sei que é grande a missão que agora me é confiada, mas vou com alegria e generosidade ao vosso encontro para amar a Deus e vos servir.

Alegra-me e conforta-me ser irmão convosco, tão belo é o testemunho cristão da Igreja do Porto.

Que Deus me ajude e vos abençoe.

Abençoai-me, também vós, caros diocesanos.

Aveiro, 21 de fevereiro de 2014
D. António Francisco dos Santos, bispo eleito do Porto

domingo, 29 de setembro de 2013

Lembrando o Bispo D. Armindo

Passam hoje. 29 de Setembro, três anos que faleceu o bispo do Porto D. Armindo Lopes Coelho do qual muitos se recordarão.



A sua biografia (citando o jornal expresso)
 
Filho de José Lopes e de Etelvina Lopes Pereira Coelho, Armindo Coelho nasceu a 16 de fevereiro de 1931 na freguesia de Santa Comba de Regilde, concelho de Felgueiras, distrito e diocese do Porto.
 
Entrou no seminário em 1942 e concluiu o curso de Teologia no Seminário Maior do Porto em 1954. Ordenado sacerdote em 01 de agosto desse ano, foi enviado para Roma onde frequentou a Universidade Gregoriana até 1959, tendo-se licenciado em Filosofia (1956) e em Teologia (1958).
 
Em 1959 foi nomeado Prefeito e Professor do Seminário do Porto, onde lecionou até 1974. Passou depois a dar aulas no Instituto de Ciências Humanas e Teológicas, até 1979, altura em que foi nomeado bispo titular de Elvas e auxiliar do Porto.
 
Foi ainda professor do Liceu Normal de D. Manuel II (Rodrigues de Freitas), do Instituto de Serviço Social do Porto e do Centro de Cultura Católica.
 
Assistente diocesano da Juventude Universitária Católica de 1962 a 1965, foi também assistente da Pastoral Familiar nas Equipes de Nossa Senhora e na Escola de Pais Nacional, de que foi cofundador em Portugal e membro do Conselho Pedagógico.
 
Em 1975 foi nomeado vigário episcopal para o Clero e Renovação do Ministério Eclesiástico, e em 1976 pró vigário geral da Diocese do Porto. Desde 1971 até ser chamado ao Episcopado foi cónego da Sé do Porto.
 
Em 27 de setembro de 1982 foi nomeado bispo da Diocese de Viana do Castelo, tendo tomado posse em 1982. Em 1991 foi encarregado de fazer a visita apostólica aos Seminários da Província Bracarense, por parte da Congregação para os Seminários e Universidades. Em 1997 desempenhou a mesma missão nos Seminários de Moçambique, por incumbência da Congregação para a Evangelização dos Povos.
 
Em 13 de junho de 1997 foi nomeado bispo do Porto, tendo tomado posse da Diocese em 29 de julho.

 
Disse D. Manuel Clemente, à época Bispo do Porto e atual cardeal patriarca:

O Senhor D. Armindo foi um fiel e generoso pastor da Igreja, com abnegada dedicação à causa do Evangelho em todos os importantes cargos que lhe foram confiados. A todos nos deixa um grande exemplo de serviço eclesial, que nos cabe agradecer e continuar.

Nas últimas ordenações sacerdotais a que presidiu nesta Sé, o Senhor D. Armindo deixou-nos palavras que certamente ouvirão com renovado assentimento os novos presbíteros desse dia, como acolheremos nós todos, especialmente os que compartilhamos o sacerdócio ministerial:  “Agora ides vós que sois os apóstolos deste tempo e para este mundo. Ides na pessoa de Jesus (in persona Christi) […], para serdes seus representantes, a sua presença entre o povo. […] Apesar de ataques, marginalizações, desconsiderações e desconfortos, é preciso haver quem ensine o Evangelho e esteja disponível para o ministério de Deus e para a paz entre os homens” (Homilia nas Ordenações Sacerdotais, 9 de Julho de 2006).

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Homilia de Natal - 2012

Transcrevemos, abaixo, a homilia do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente (quem sabe inspirado pela Missa do Galo na nossa Paróquia do Bonfim):




– Que em nós se repercuta e progrida o que aconteceu em Maria!

1. Amados irmãos, aqui reunidos na igreja catedral do Porto, ou, também connosco, pela rádio e a televisão, celebrando o Natal do Senhor:
É com plena alegria que vos saúdo a todos e a cada um, especialmente aos que estejam doentes ou sós, em dia como este que, apesar de tudo, de alegria pode ser, porque só alegria pode dar.
Entendamo-nos, porém, sobre a alegria do Natal, essa mesma que repassa as leituras, as orações e os cânticos desta quadra litúrgica. É uma alegria que de Deus parte e apenas Deus garante.

É por isso profunda e absolutamente transversal. Podemos senti-la aqui, em paz e boas condições exteriores. Mas sentem-na e testemunham-na também os irmãos nossos que celebram o Natal de 2012 em situações pesadas e gravosas, por falta de liberdade religiosa ou mesmo perseguições que sofrem, noutros lugares do mundo. Não esqueçamos que, no ano que está a terminar, o cristianismo foi a religião mais perseguida, segundo o relatório da Ajuda à Igreja que Sofre… E nem por isso deixam de celebrar o Natal, como quem se reconforta na certeza de não estar só, antes divinamente acompanhado.
Eu próprio o pude verificar na recente assembleia do Sínodo dos Bispos, da parte de alguns intervenientes, oriundos de países onde ser cristão não é nada fácil, exteriormente falando. Recordo um deles, do Próximo Oriente, que reagiu ao discurso dum colega europeu, exclamando algo assim: «Com todas as dificuldades e privações que desde há muito sofremos, parece que estamos melhor, animicamente melhor, do que vós na Europa!». E foi contagiante o entusiasmo de outros bispos, provenientes de territórios, como o Camboja, onde há pouco tudo parecia ter sido arrasado, que cristão ou religioso fosse…
Na verdade, a alegria que esta solenidade nos oferece é outra, muito mais certa e segura do que os efémeros surtos da nossa boa disposição – por mais que esta também conte, certamente conte.

2. Relembremos os trechos bíblicos de há pouco: Logo na primeira leitura, bradava o profeta: «Rompei em brados de alegria, ruínas de Jerusalém, porque o Senhor consola o seu povo!». Reparemos que é a “ruínas” que se dirige, não a uma cidade próspera e com gente conseguida… E a razão veio adiante: «Porque o Senhor consola o seu povo». Não que Deus os dispensasse, ou omitisse a colaboração; mas exatamente na medida em que se deixassem realmente “consolar”, que o mesmo é dizer “consolidar” por um Deus que nunca desiste de fazer e refazer caminho com a humanidade que Ele próprio sustenta.
No entanto, estimados irmãos, isto que pareceria fácil, revela-se particularmente difícil. Séculos e séculos de história bíblica – como se resumissem milénios inteiros de história mundial – comprovam negativamente a nossa dificuldade em fazer o que só aparentemente é mais fácil, ou mais óbvio. Refiro-me à nossa pouca disponibilidade para deixarmos que Deus seja realmente o nosso Deus, à nossa resistência em sermos segundos numa criação em que só Ele, de facto e de direito, pode ser primeiro. E é com muito pouca convicção que dizemos “Seja o que Deus quiser”, quando esperamos, isso sim, que Ele faça o que nós queremos de antemão que aconteça, mesmo com aquelas “boas intenções” que não enchem propriamente o céu… .
E assim vamos somando e somando projetos nossos, demasiadamente nossos, ideais até, onde a realidade nunca cabe, no tamanho grande que devia ter. E o que sobra insurge-se, trazendo-nos desilusões, que um maior realismo decerto evitaria. A autossuficiência - para não dizer o egocentrismo ou o egoísmo mais vulgar – é outro nome do irrealismo, a que o bíblico Qohélet chamou ilusão ou vaidade, destinada a esfumar-se no vazio que nunca deixa de ser.
A história faz-se com o Senhor dos tempos. Conta connosco, faz-nos quase concriadores com Ele, mas não se dispensa de ser Princípio, Fonte e Pai, para nos dar a vida que só Ele tem e oferece. A nós, infelizmente, custa muito e muitíssimo ser filhos, comportando-nos antes como pródigos e esbanjadores constantes de tudo o que só com Ele não se dissiparia por certo.

3. Nasceu Jesus no mundo, para nos ensinar a viver filialmente, como nele eternamente acontece. Lembrou-o há pouco a Epístola aos Hebreus, para que o entendêssemos por fim: «Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo…».
Irmãos caríssimos: Olhemos bem para Jesus, sigamo-lo do Natal à Páscoa, para nele renascermos como filhos de Deus, nossa verdadeira condição e mais garantida alegria. Aquela de que falava São Paulo aos filipenses, como agora nos fala a nós: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo: alegrai-vos! Que a vossa bondade seja conhecida por todos. O Senhor está próximo. Por nada vos deixeis inquietar…». E, versículos à frente, referindo-se a si mesmo: «Sei passar por privações, sei viver na abundância. […] De tudo sou capaz n’Aquele que me dá força» (Fl 4, 4-6.12-13).

De ontem para hoje, é em 2012 que estamos e como estamos. Poucos dirão que estamos bem, ou como gostaríamos de estar, falando em termos gerais, sociais, familiares, profissionais… Apesar de inegáveis esforços oficiais e particulares, as dificuldades atingem gravemente a sociedade portuguesa e outras sociedades também.
Não é este o lugar nem a ocasião para nos ocuparmos de assuntos que não são da nossa competência específica, ainda que devamos e queiramos participar responsavelmente na cidadania comum. Mas é lugar e ocasião para lembrarmos o que uma consciência “religiosa” propriamente dita nos garante, ou seja, que todo o problema humano tem um âmbito maior do que qualquer materialismo reduza; e só “filialmente” se resolve, abrindo-nos a um Deus que connosco fará «imensamente mais do que pedimos ou imaginamos, de acordo com o poder que eficazmente exerce em nós» (cf. Ef 3, 20).
Aliás, mesmo quando se adianta, de modo apenas racional e secular, que a presente situação não se ultrapassará fora duma ordem de princípios e valores em que verdadeiramente caibam “todos os homens e o homem todo”, já existe abertura a algo muito maior do que os interesses e desinteresses imediatos. Para nós, os crentes, esse algo é mais exatamente Alguém; e esse Alguém fez-se um de nós no Menino do Presépio, no Cristo do Evangelho inteiro, da alegre notícia que há de chegar a todos.

4. Ouvimos também, no texto proclamado, que «o Verbo fez-se carne e habitou entre nós». É a verdade central deste dia e o que mais importa reter. Não nos distraiamos da vida nem dos seus inegáveis problemas, imaginando “deuses”, ou desistindo dos homens. Escutemos autenticamente a Deus, como na verdade “falou” em Jesus seu Verbo, palavra dita e feita. E assim oferecida e patente, na humanidade que ganhou da Virgem Mãe e inteiramente compartilhou connosco, nas vicissitudes comuns de qualquer vida humana. Connosco, humanos como somos e divinos como havemos de ser, unidos a Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Mais ainda, ou mais precisamente: Não há momento da vida - do nascer, ao crescer e ao morrer; da família aos amigos e às solidões; dos sonhos e da realidade que lhes resiste; dos êxitos fugazes às deceções sobrevindas -, nada que ficasse fora da encarnação do Verbo, onde Deus se disse e demonstrou absolutamente solidário e próximo de cada um de nós.
Mas, sendo esta a nossa alegria – precisamente a de nos sabermos e sentirmos tão acompanhados por um Deus que encarnou na nossa carne, para partilhar a nossa vida -, é também agora a nossa responsabilidade, diante de tantos males e problemas que afetam a sociedade que somos.
A resposta, vinda de Deus na encarnação do Verbo, é espiritual e íntima, de oração portanto. Problemas humanos são problemas divinos, como Jesus os enfrentou na união connosco e com o Pai. Vinte séculos de cristianismo demonstram bem – de Bento de Núrsia a Francisco de Assis ou Teresa de Calcutá – que grandes e positivos impactos sociais brotam de profundas vidas espirituais, outros tantos exercícios da filiação divina, que, “em Cristo”, tudo recebem do Pai para distribuir aos irmãos.
Mas essa mesma vida espiritual nos comunica a caridade divina - a absoluta solidariedade de Deus com a humanidade que Ele faz viver - e nos impele a multiplicados atos de inteligência, vontade e sensibilidade, em relação aos outros, especialmente os mais necessitados de corpo ou espírito. Proclamar a encarnação do Verbo, como esta solenidade o faz e a liturgia a celebra, requer da nossa parte a coerência grande com a ação libertadora de Deus, em relação a quanto oprima e apouque uma humanidade que Ele mesmo deseja realizada e feliz.

5. E não nos deixemos tolher pela magnitude dos problemas e a perplexidade que provocam. Para acolher a encarnação do Verbo e a continuarmos no mundo, também temos o exemplo garantido, da Anunciação a Maria ao que se seguiu depois e o Magnificat canta.
Grandes problemas eram então os de Israel, tão diferente estava, negativamente estava, do que outrora fora e do que as profecias indicavam para depois: terra pobre de gente pobre, nação submetida a um império estranho… E foi então que uma jovem de Nazaré da Galileia ouviu o que nunca ninguém ouvira, a propor-lhe o que ninguém pensaria: que deixasse nascer dela o próprio Deus feito homem, para poder ser, finalmente ser, o “Emanuel” (= Deus connosco).
Maria ainda adiantou um “Como será isso?”, mas para acabar dizendo: “Faça-se em mim segundo a tua palavra!”. Jesus nasceu e Deus pôde acontecer no mundo. Caríssimos irmãos, que celebramos o Natal de Cristo: É para hoje e é connosco esta lição também, face a tantos problemas que nos afligem, pessoal, familiar e socialmente. Não importa que sejam grandes, os problemas; é preciso que seja imensa a nossa fé, grandíssima a disponibilidade para dizermos “sim” a um Deus que quer continuar a viver connosco. Para isso requer a nossa inteligência, a nossa vontade, inteiramente repassadas pelas suas. E podemos concluir de 2000 anos de cristianismo que, com disponibilidade nossa, acontecerá o que deve acontecer no nosso pequeno ou vasto mundo e a partir de agora. Como semente que germina, como um pouco de fermento a levedar a massa. Neste sentido – e só neste essencial sentido – é verdade “ser Natal quando um homem quiser”.
Deixai-me concluir do modo mais prático e quase funcional: Neste mesmo dia e aí mesmo onde cada um esteja, olhai em redor, em casa, na vizinhança, ou onde poderdes chegar, do modo que seja; reparai em algo a fazer, alguém a ajudar, caso a resolver; não deixeis acabar o dia sem terdes feito algo nesse sentido, pouco que seja; amanhã mais um passo…E, com a humanidade vossa que assim lhe proporcionais, o Verbo de Deus atuará, soará e chegará aonde quer chegar. Repetidamente vos surpreendereis com o seu acontecer em vós e através de vós, em continuado Natal.
Este dia é belo demais para esperar outro ano. Tem de ser a verdade plena de vidas ao serviço da encarnação do Verbo. E dessa coincidência plena com a vontade de Deus, brotará a única alegria duradoura. – Que em nós se repercuta e progrida o que aconteceu em Maria!

Sé do Porto, Natal de 2012
+ Manuel Clemente