Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Octávio Carmo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Octávio Carmo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de setembro de 2014

Construir o futuro

Hoje trazemos mais um artigo da Agência Ecclesia, da autoria de Octávio Carmo, que fala sobre o futuro num momento especial que é o regresso "pós-férias": regresso ao trabalho e regresso às aulas:



O fim do verão, que este ano passou muito discretamente pelo país, traz muitos de volta à realidade laboral e escolar que vai marcar os seus dias nos próximos meses. O interregno - cada vez menos generalizado, é certo - foi invulgar, não só por causa do clima, mas pelas diversas crises, do ébola à guerra na Ucrânia, passando pelos desvarios do autoproclamado Estado Islâmico. Apesar de tudo, fica a nota positiva do menor número de incêndios, poupando vidas e bens, em Portugal.

O mergulho na ‘realidade’ vai ter, por isso, um pano de fundo diferente. De crise financeira em crise financeira, parece ser difícil ter um fundo de esperança para vislumbrar algo de diferente no futuro. Qualquer ténue sinal de recuperação tem sido abafado por cataclismos ‘imprevistos’, que ninguém conseguiu ou quis ver antecipadamente, deixando adivinhar mais do mesmo, para os mesmos.

Ganha por isso particular importância a reflexão sobre a dimensão social do anúncio do Evangelho que a Igreja Católica, através do seu Secretariado Nacional de Pastoral Social, quer promover. O labirinto da crise financeira, os constrangimentos orçamentais e os sacrifícios impostos em prol do pagamento da dívida estão longe de ser respostas para a vida de milhões de pessoas que acreditaram numa sociedade melhor, mais justa e fraterna - porque não dizê-lo, mais cristã.

O poder transformador do Evangelho é fundamental neste impasse civilizacional em que o projeto europeu parece estar mergulhado. A falta de valores comuns, de fundo, que ultrapassem a mera visão utilitarista das pessoas e das nações, ameaça a estabilidade e a paz, exigindo a mudança de paradigma e a recentralização das preocupações na pessoa e na dignidade de cada um, como o Papa Francisco tem vindo a repetir incessantemente.

Feitos os diagnósticos à crise, contestadas as receitas para as solucionar e abertas as feridas que todo este processo provocou, está na hora de procurar uma verdadeira cura e começar a construir o futuro. A Doutrina Social da Igreja, com o seu equilíbrio de princípios e o respeito absoluto por cada vida, por todas as vidas, que nunca podem ser instrumentalizadas, oferece um guia seguro para superar o desencanto ideológico de tantos e o aparente desnorte de quem devia ir à frente dos seus povos e, afinal, perdeu o rumo.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quaresma: Renascer das Cinzas

Hoje que começa a Quaresma, transcrevemos um texto de Octávio Carmo publicado na Agência Ecclesia que nos convida a pensar no sentido deste tempo de preparação para a Páscoa:



O início da Quaresma convida à reflexão e à ação, pela mão do Papa Francisco, relativamente aos temas da pobreza, da miséria, da construção da sociedade e da relação com Deus e entre pessoas. Iniciado simbolicamente sob as cinzas, este tempo de preparação para a Páscoa convida a um renascimento, uma mensagem particularmente importante no momento que se vive, a nível nacional.
O debate sobre o magistério social e económico do Papa argentino tem padecido, em muitos casos, do mesmo mal que dimensionou avassaladoramente a atual crise: qualquer questão pessoal, humana, ética e transcendente é colocada em segundo plano face às estruturas, ao discurso centrado no mundo financeiro, à guerra político-partidária.

Discutir a pobreza, pela mão do primeiro Papa sul-americano, é falar de uma cultura de desperdício, é questionar os fatores que, dentro da mesma sociedade, fazem aumentar as desigualdades e o sofrimento humano, sem direito a uma vida digna. Mas discutir a pobreza, segundo Francisco, não é apenas contestar uma condição socioeconómica que limita o horizonte da existência humana: a pobreza é também uma atitude de discernimento, uma hierarquia de valores interna e social que leva a utilizar os recursos em função dos outros, promovendo os desfavorecidos e respeitando as gerações futuras.

Esta Igreja «pobre para os pobres» que o Papa quer levar os católicos a formar exige uma conversão profunda, que é mais do que uma mera transformação administrativa ou estrutural. Contra a corrente, cada cristão é chamado a aprender a ser pobre, a projetar a sua existência para lá das contingências quotidianas, sacudindo o pó sem deixar-se agarrar pela terra do presente, com a certeza do futuro que a fé lhe oferece.

A pobreza é uma marca do cristão e, sem qualquer dúvida, uma exigência fundamental para a credibilidade da mensagem que procura transmitir. Muitos são os que lhe pedem este testemunho de sobriedade, centrado no essencial, condenando quaisquer sinais de luxo ou exibicionismo. A esses, é preciso dar a conhecer os fundamentos do valioso património espiritual que a Igreja transporta consigo.

É importante, por isso, repetir com Francisco que a pobreza se transforma em miséria(s) quando cada pessoa perde um horizonte de esperança, de confiança e de solidariedade. Não se pode esperar que sejam quem queimou a sociedade a promover a sua recuperação. Só um mundo verdadeiramente novo, que na fé católica nasce do Alto, poderá ajudar todos a renascer das cinzas.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Lei moral, lei dos homens...lei natural

Hoje trazemos mais um texto da Agência Ecclesia, desta vez da autoria de Octávio Carmo que nos recorda uma citação de Bento XVI que já tem 7 anos, mas que se mantém actual.



“A lei natural é a nascente de onde brotam, juntamente com os direitos fundamentais, também imperativos éticos que é necessário respeitar. (…)
A legislação torna-se com frequência apenas um compromisso entre diversos interesses: procuram-se transformar em direitos interesses particulares ou desejos que contrastam com os deveres derivantes da responsabilidade social”.
Bento XVI, 12.02.2007

O discurso já não é novo, mas a lição magistral que o agora Papa emérito deixou há quase sete anos sobre a relevância da lei moral natural está longe de perder a atualidade, mormente num momento em que o país discute um eventual referendo sobre a adoção e coadoção nos casos de uniões do mesmo sexo. Bento XVI retoma uma argumentação que poderia estar mais presente nas posições assumidas por quem de direito, em nome da Igreja Católica.

Por norma, as intervenções dos responsáveis eclesiais sobre estas questões são “guetizadas” ou “rotuladas”, normalmente com a justificação de que estamos perante opiniões que nascem de convicções religiosas e que o Estado tem de legislar a partir de outros pressupostos.

(Mantenho, a este respeito, uma preocupação sobre o que se entende por liberdade religiosa - não estamos a falar de uma liberdade de culto, privada, mas de um conjunto de condições jurídicas que se estendem à educação, ao direito de associação, à profissão pública da fé, com consequências na vida concreta e no comportamento, na organização da vida social. Respeitar a consciência é respeitar as suas escolhas e convicções, também do ponto de vista religioso).

A Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa a propósito da ideologia do género antecipava algumas das questões que estão agora a dominar o debate parlamentar, mas é justo dizer que não basta um documento, por mais explícito que seja, para deixar tornar relevante (e iluminadora) a posição da Igreja a este respeito, a partir do chão comum de humanidade e civilização que a une a outros, independentemente das suas convicções religiosas.

Como vimos com a trágica crise dos últimos anos, acima da dignidade humana têm estado valores económicos, jogos políticos e interesses particulares.

Recordando Bento XVI, mais uma vez, fazem-se votos de que a Igreja Católica em Portugal ajude a recordar o “valor inalienável que a lei natural possui, para um progresso real e coerente da vida pessoal e da ordem social”.