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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Iniciação ao silêncio


Depois de um longo período de silêncio, aqui segue um texto sobre isso mesmo, o silêncio!

Vale a pena ler com atenção este texto de José Tolentino Mendonça publicado no jornal Expresso:



Precisamos de uma iniciação ao silêncio

Ao que parece, durante anos, o compositor John Cage sondou a possibilidade de elaborar uma obra completamente silenciosa, mas impedia-o duas coisas: a dúvida se uma tarefa assim não estaria, desde logo, votada ao fracasso, porque tudo é som; e a convicção de que uma composição tal seria incompreensível no espaço mental da cultura do Ocidente. Contudo, encorajado pelas experiências que se realizavam já nas artes visuais, construiu a sua peça intitulada 4’33’’.

A proposta de Cage era completamente insólita: os músicos deviam subir ao palco, saudar o público, sentar-se ao instrumento e permanecer, em silêncio, por quatro minutos e trinta e três segundos, até que, de novo, se levantassem, agradecessem à plateia e saíssem. Na assistência instalou-se a polémica e choveram as vaias. Mas ao longo de toda a sua vida, John Cage referiu-se a essa peça com sentida reverência: «A minha peça mais importante é essa silenciosa; não passa um só dia que não me sirva dela para a minha vida e para tudo o que faço. Recordo-a sempre que tenho de escrever uma nova peça».

Quando penso no contributo que a experiência poética ou religiosa possa dar num futuro próximo à humanidade, penso francamente que mais até do que a palavra será a partilha desse património imenso que é o silêncio. Na palavra fazemos a experiência da diferenciação, experiência certamente fundante, mas também ela parcial e insuficiente. Precisamos do auxílio de outra ciência, a que recorremos pouco: o silêncio. Isaac de Nínive, lá pelos finais do século VII, ensinava: “A palavra é o órgão do mundo presente. O silêncio é o mistério do mundo que está a chegar”. Creio que é absolutamente urgente revisitarmos com outro apreço os territórios dos nossos silêncios e fazermos deles lugares de troca, de diálogos, de encontros. O silêncio é um instrumento de construção, é uma lente, uma alavanca.

As nossas sociedades investem tanto na construção de competências na ordem da palavra (e pensemos como a escolarização está ao serviço da capacitação dos indivíduos em ordem a um funcionamento eficaz com a palavra) e tão pouco nas competências que operam com o silêncio. Somos analfabetos do silêncio e esse é um dos motivos porque não sabemos viver na paz.

O silêncio é um traço de união mais frequente do que se imagina, e mais fecundo do que se julga. O silêncio tem tudo para se tornar um saber partilhado sobre o essencial, sobre o que nos une, sobre o que pode alicerçar, para cada um enquanto indivíduo e para todos enquanto comunidade, os modos possíveis de nos reinventarmos. Mas para isso precisamos de uma iniciação ao silêncio, que é o mesmo que dizer uma iniciação à arte de escutar.

Na sociedade da comunicação há um défice de escuta. Numa cultura de avalanche como a nossa, a verdadeira escuta só pode configurar-se como uma re-significação do silêncio, um recuo crítico perante o frenesim das palavras e das mensagens que a todo o minuto pretendem aprisionar-nos. A arte da escuta é, por isso, um exercício de resistência. Ela estabelece uma descontinuidade em relação ao real aparente, à sucessão ociosa do discurso, à enxurrada que a telenovelização do quotidiano (seja ele político, económico ou cultural) comporta. A escuta constitui uma cesura, um corte simbólico, uma deslocação.

Pense-se em como o silêncio dá a ver o património de uma amizade. E a pergunta é: como percebemos que dois desconhecidos são amigos? Pela forma como conversam? Certamente. Pelo modo como se riem? Claro que sim. Mas ainda mais porque nitidamente acolhem o silêncio um do outro. Entre conhecidos o silêncio é um embaraço, sentimos imediatamente a necessidade de fazer conversa, de ocupar o espaço em branco da comunicação. Com os amigos o silêncio nada tem de embaraçoso. O silêncio é um vínculo que une.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Domingo com Papa Francisco

Hoje, domingo, transcrevemos um texto publicado na Agência Ecclesia sobre a habitual despedida do Papa Francisco: "bom domingo e bom almoço", da autoria de José Tolentino Mendonça

É com esta frase que o Papa Francisco se despede dos fiéis reunidos para o Angelus em cada domingo. É uma expressão inabitual, há que reconhecer. O que os pontífices anteriores se concediam era, quanto muito, um aceno de mão a mais ou um sorriso que se abria. Naquela janela do Palácio Apostólico, tanto João Paulo II como Bento XVI, só para falar dos mais recentes, mostraram-se sem véus, é verdade. Basta lembrar o lento e dolente calvário do Papa Wojtyla que fazia alguns comentadores perguntarem se não seria demais a exposição de tamanho sofrimento. Ou os últimos Angelus do Papa Ratzinger, antes e depois da grande renúncia. Para quem quisesse ver estava tudo ali. E a forma de comunicação não era nem melhor nem pior: era simplesmente diferente. Mas o que toca tanta gente no estilo do Papa Francisco é esta capacidade, que parece fácil mas é muito rara, de avizinhar-se, de revelar-se familiar, de expressar uma atenção concreta pelos outros. Traduzida por ele, a pastoral deixa de ser uma ciência abstracta, feita de gráficos e organigramas. Deixa de reger-se por categorizações e manuais. É evangélica, instintiva e inclusiva; torna-se uma arte que o coração conhece (e reconhece). É um pacto de confiança que aceita  a necessidade permanente de refazer-se.  É um passar da soleira formal onde tantas vezes a evangelização, infelizmente, se detém. Jesus enviou os seus discípulos dizendo-lhes que entrassem nas casas, que se sentassem à mesa, que comessem e bebessem do que lhes fosse servido (Lc 10,8). Nessa comunhão de mesa e de destino realiza-se uma das viagens mais surpreendentes que se pode fazer, em qualquer tempo e em qualquer civilização: o transcender daquele espaço que separa os outros dos nossos; o atravessar dos  obstáculos que dividem o mundo entre estranhos e familiares. Quando ouvimos o Papa Francisco desejar “bom domingo e bom almoço” não é apenas uma forma tipificada de cortesia.  É mais do que isso. É muito mais.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Deus, questão para crentes e não crentes



Hoje transcrevemos um texto da autoria de José Tolentino Mendonça para a Agência Ecclesia que nos convida a pensar:

Aquela palavra de São João, “a Deus nunca ninguém O viu” (1 Jo 4,12), trazemo-la como uma ferida. Nenhum de nós viu a Deus. E contudo a Sua presença, o Seu Amor, dá sentido às nossas vidas. Este paradoxo, que constitui ao mesmo tempo uma fonte de esperança, não deixa de ser um espinho. A maior parte do tempo, experimentamos apenas o desencontro de Deus, o Seu extenso silêncio. Buscamos a Deus sem O ver, acreditamos Nele sem O experimentar, escutamos a Sua voz sem verdadeiramente O ouvir. Tateamos o Seu rosto na ausência e no silêncio. E contudo, ausência e silêncio são lugares que misteriosamente insinuam uma presença. No filme “Nostalgia” de André Tarkovski, há uma cena lancinante onde se vê um grupo humano que anda desencontrado, uma multidão que se move de um lado para o outro, numa demanda labiríntica. Ouve-se então uma voz, a voz de um narrador que rompe o silêncio com este grito: “mas diz alguma coisa Senhor, diz-lhes uma palavra, eles andam à procura, não vês que têm o desejo de Ti?”. A voz de Deus faz-se ouvir com esta resposta: “E se Eu disser uma palavra, achas que eles conseguem entender?” É, no fundo, este o drama, o drama do silêncio de Deus. A dificuldade de fazer convergir finito e infinito, Graça e liberdade, provisório e definitivo, o presente e o futuro.  

Porém, sabemos que o silêncio ainda não é Deus. O silêncio é lugar de luta, de procura e espera. Aos poucos vamos aderindo à possibilidade de dar espaço, de abrir a nossa vida ao Outro, deixando que a revelação do Outro nos habite. Somos em grande medida habitados pela possibilidade de Deus. Nesse sentido, a fé tem a forma de uma hipótese. A fé é expectativa. A fé vive do combate, pois nada nunca está feito, nada nunca está acabado, nada é completamente conhecido. Caminhamos às apalpadelas, como se víssemos o invisível, segundo a bela formulação da Carta aos Hebreus (Heb 11,7). A vizinhança de Deus da nossa história não anula a dimensão agónica e interrogativa da existência. O viver do crente está a fazer-se, a construir-se, é sempre inacabado, é sempre um lugar de turbulência, de agitação, de luta. E foi assim já a vida do próprio Jesus.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A luz da fé

Hoje transcrevemos um texto de José Tolentino Mendonça à Agência Ecclesia e que nos põe a pensar sobre a fé. 




O escritor António Alçada Baptista conta uma história exemplar, na primeira pessoa: «Uma vez eu fui operado e estava só no hospital com  meu pai. Tinha uma dor pegada das unhas dos pés às pontas dos cabelos e meu pai estava ao pé de mim. Eu tinha já 19 anos, mas apeteceu-me a sua mão humana e paterna e disse-lhe:

- Deixe-me ver a sua mão.
- Para quê?
- Preciso da sua mão.

Ele sorriu-se e deu-ma, mas imediatamente começaram a funcionar dentro de si as pesadas estruturas marialvas e académicas que recusam a um filho de 19 anos a mão terna dum pai. E, disfarçadamente, começou a retirar a sua mão até que a minha continuou pedinte, mas só e unilateral.».

«Preciso da tua mão». O conhecimento de Deus só pode ser um conhecimento vivido, profundamente experimental. Essa é uma afirmação espantosa que atravessa toda a Revelação Bíblica, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Deus está. O Deus transcendente “vê”, “escuta”, “compadece-se”, “mostra-se”, “permite o encontro”. Pense-se no passo fundamental do Livro do Êxodo: «Eu vi, Eu vi a miséria do Meu povo que está no Egipto, ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores, pois Eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo» ( Ex 3,7). A Escritura foge assim a definições e constrói uma gramática eminentemente narrativa. Não conceptualiza: narra, relata, exemplifica. E as imagens que nos oferece de Deus atestam que Ele está presente.   

Com mais razão ainda, o Evangelho de Jesus desautoriza-nos a persistir em fórmulas obscuras. A viragem que Jesus introduz é considerar Deus a partir de dentro. Jesus apresenta-Se como o Filho de Deus. E a relação que mantém com Deus é uma relação filial. Isto é, Jesus vem dizer que Deus O impregna profundamente a ponto de Ele ser Filho e se descobrir como tal. Não é apenas um conhecimento especial que Jesus fornece de Deus. É outra coisa: Deus é a fonte que plasma e ilumina a criatividade messiânica das Suas palavras e dos Seus gestos (Jo 14,8-11)... De certa maneira, o programa de Jesus outra coisa não é que esta filiação. Mergulhados na sua páscoa, somos chamados a viver do seu Espírito, configurados à sua realidade, atravessados e guiados pela sua luz. 

É fundamental percebermos que a relevância do discurso cristão parte, antes de tudo, da sua essência. Claro que o papa Francisco ir ao desembarcadouro de Lampedusa, reclamar corajosamente por políticas mais humanas, deve colher a atenção de todos. Mas de igual maneira deveria ser escutado quando nos propõe, com límpido desassombro, uma reflexão sobre a fé.